BENZENO

 

Propriedades físicas e químicas

À temperatura ambiente, o benzeno é um líquido volátil, estável e incolor. Tem um cheiro característico e um ponto de ebulição relativamente baixo (80,1º C), evaporando-se rapidamente. É altamente inflamável. É pouco solúvel em água mas miscível com a maior parte dos solventes orgânicos.

Tem a fórmula química C6H6, com os seus átomos de carbono nos vértices de um hexágono e um átomo de hidrogénio ligado a cada carbono.

Na sua análise química são utilizadas técnicas de cromatografia de gás para a sua separação, com detecção por ionização por chama, fotoionização ou espectrometria de massa.

 

Origens e utilizações

O benzeno é produzido industrialmente a partir da destilação do petróleo bruto, da destilação de hulha e produção de coque e por síntese química a partir de hidrocarbonetos lineares.

É utilizado como matéria-prima para síntese de outros compostos orgânicos (p.e. estireno, fenóis, ciclohexano, etc.) e como aditivo nos combustíveis para veículos, substituindo, em parte, o chumbo. No passado foi utilizado como solvente em tintas, colas e semelhantes, limpeza a seco, etc. Atendendo aos seus efeitos na saúde, foi substituído por outros produtos, neste tipo de utilização.

Deste modo e atendendo à sua volatilidade, o benzeno entra em contacto com o homem principalmente através do ar, em ambientes industriais específicos ou na atmosfera urbana, resultante de fugas de combustíveis ou da sua queima incompleta.

 

Vias de entrada e efeitos na saúde do homem

Ambiente

Atendendo à sua elevada volatilidade, o benzeno tende a acumular-se maioritariamente no ar, quer a partir da água, quer do solo ou sedimentos. No entanto, é removido da atmosfera para a água e para o solo durante os períodos de chuva.

Durante a sua permanência na atmosfera, o benzeno é degradado quimicamente pela acção de radicais hidróxido, alcóxido e peróxido, oxigénio e ozono, sendo a primeira a mais importante. Destas reacções resulta a formação de diversos compostos que podem incluir fenóis, nitrobenzenos, nitrofenóis e muitos outros compostos orgânicos. A decomposição do benzeno pela acção da luz (fotólise) não parece ser importante.

No solo e na água, o benzeno é biodegradado por diversos tipos de microrganismos tanto em condições aeróbicas como anaeróbicas, neste último caso com maior dificuldade.

Não se verifica a sua bioconcentração, através da cadeia alimentar.

Ar

Têm sido medidos os seguintes valores típicos para concentrações médias diárias de benzeno no ar de 0,51 g/m3 (0,16 ppb) em locais remotos,
1,50 g/m
3 (0,47 ppb) em áreas rurais e 5,76 g/m3 (1,8 ppb) em zonas
urbanas. No entanto, foram observadas concentrações pontuais muito mais elevadas, atingindo valores de 510 g/m
3.

Estes valores elevados de concentrações de benzeno parecem
depender substancialmente da densidade do tráfego automóvel e das condições meteorológicas locais. Do mesmo modo que para outros poluentes atmosféricos, as concentrações de benzeno podem aumentar
durante os períodos de ausência de vento.

Em cidades ou regiões onde existem indústrias que produzem ou transformam benzeno, verifica-se um aumento da sua concentração na atmosfera, embora de uma forma mais variável.

No entanto, mesmo em alguns locais atrás referidos, no interior das habitações foram observadas concentrações de benzeno superiores às concentrações ao ar livre. A sua origem é o fumo do tabaco que constitui uma fonte de exposição importante quer para fumadores quer para a população em geral. Foram medidos valores da concentração de benzeno no fumo de cigarros com filtro de 26 a 36 g/m3. Existem igualmente estudos que apontam para a contribuição de produtos de consumo como adesivos, materiais de construção e tintas que contribuem para baixos níveis de benzeno no interior das habitações.

Água

As concentrações de benzeno observadas na água são muito variáveis, desde 0,005 - 0,015 g/l em regiões não poluídas, até 87,2 g/l em água da chuva ou 330 g/l em poços poluídos. Em águas superficiais, as concentrações de benzeno são geralmente inferiores a 1 g/l. O valor paramétrico para águas de consumo humano, segundo o Dec. Lei nº 243/2001 é de 1,0 g/l.

Solo

Geralmente a contaminação do solo por benzeno não provoca situações importantes de exposição do homem, atendendo à sua volatilização no ar. As suas origens são, geralmente, derrames ou rupturas de tubagens ou reservatórios.

Alimentos

Dados sobre ocorrência de benzeno nos alimentos são muito limitados. No entanto são conhecidos alguns valores particularmente elevados como 120 g/kg em rum da Jamaica, 19 g/kg em carne de vaca, 500-1900 g/kg em ovos e 3-88 g/kg em 37 de 114 amostras de peixe.

Exposição da população

O benzeno é um composto ubíquo no ambiente, estando a população exposta a uma grande variedade de origens. A OMS considera que a mais importante fonte de exposição para a população em geral é a
respiração de ar poluído por fontes humanas de benzeno, incluindo o consumo de cigarros. A exposição por inalação de vapores durante o abastecimento de gasolina a automóveis pode também ser importante. Outras origens de benzeno para inalação incluem a proximidade de depósitos de resíduos perigosos ou instalações industriais e emissões de produtos de consumo. Na sequência de estudos extensivos nos Estados Unidos concluiu-se que as fábricas de compostos químicos, tratamento de água, de alimentos e bebidas e refinação de petróleo apenas apresentam uma contribuição mínima para a exposição total da população em geral.

Outros estudos realizados com o objectivo de avaliar o nível da exposição da população em geral ao benzeno proveniente de diversas fontes, apontam que as fontes mais importantes são fontes pessoais (uso de produtos libertando benzeno, condução ou viagem em automóveis), a exposição a gases de escape dos automóveis e ao fumo de tabaco (exposição activa e passiva). Esta última via é, de longe, a mais importante (1800g/dia para um consumo de 30 cigarros).

As contribuições da água e dos alimentos são negligenciáveis (até 1,4g/dia). As contribuições da atmosfera interior ou exterior são muito variáveis, da ordem de 90g/dia, a exposição passiva ao tabaco de 50g/dia, a utilização dos automóveis de 50g/dia.

No Canadá calculou-se a dose de benzeno a que um não fumador está sujeito em cerca de 230 g/dia. Para um fumador haverá a somar 1800g/dia. Para os Estados Unidos foi estimada a dose diária, para não fumadores e em diversas cidades, entre 430 e 1530 g/dia.

A absorção do benzeno, por via aérea e por via oral, é feita facilmente. A eliminação é feita por via aérea através do ar expirado. Os metabolitos da decomposição do benzeno no organismo são eliminados principalmente por via urinária. Por ingestão ou pela via dérmica a absorção é relativamente reduzida.

 

Efeitos no homem

 

Foi demonstrado que o benzeno produz um considerável número de efeitos biológicos. Os efeitos agudos do benzeno reflectem a sua actividade como anestésico geral e podem conduzir a uma depressão do sistema nervoso central, perda de consciência e sensibilização do miocárdio às catecolaminas. A exposição crónica pode resultar na depressão de medula óssea que provoca leucopenia, anemia, e/ou trombocitopenia. Os efeitos imunotóxicos do benzeno estão provavelmente relacionados com a depressão da medula óssea. Em ensaios em animais foi descrito o aparecimento de tumores epiteliais, enquanto que no homem a resposta carcinogénica é a leucemia. Um terceiro tipo de impacte biológico é a produção de respostas teratogénicas tais como aberrações cromossómicas, trocas de cromatídeos e micronúcleos. Foi ainda sugerida a produção pelo benzeno, de efeitos fetotóxicos.

Exposição crónica

No Environmental Health Criteria 150 Benzene são apresentados diversos estudos de toxicidade por exposição crónica ao benzeno, quer em ensaios animais, quer na área da saúde ocupacional. Não são referidos estudos relativos a condições de exposição semelhantes às da poluição atmosférica.

Igualmente são referidos diversos estudos laboratoriais de toxicidade reprodutiva, embriotoxicidade e teratogenicidade.

Relativamente à cancerigenicidade do benzeno são sumariados alguns estudos realizados em animais, evidenciando que diversos tipos de neoplasias podem ser relacionados com a inalação ou ingestão de benzeno, designadamente: linfomas, leucemias e, principalmente, carcinomas de origem epitelial (fígado, glândula mamária e cavidade oro-nasal).

 

 

Conclusões

Para apoiar os estados membros no desenvolvimento de valores-guia para exposição ao benzeno, o grupo de trabalho da OMS concluiu que um TWA de 3,2 mg/m3 (1 ppm) durante um período de trabalho de 40 anos não está estatisticamente associado com um aumento de morte por leucemia. Contudo, dado que o benzeno é um cancerígeno para o homem, a exposição deverá ser limitada ao nível mínimo tecnicamente possível. Exposições a níveis superiores a 32 mg/m3 (10 ppm) deverão ser evitadas. Benzeno e produtos contendo benzeno nunca deverão ser utilizados para processos de limpeza.

Tradicionalmente, uma depressão da medula óssea, i.e. anemia, leucopenia ou trombocitopenia têm sido reconhecidos como o primeiro estádio da toxicidade pelo benzeno e parecem seguir uma relação dose-resposta ou seja quanto maior a dose, maior a probabilidade de observar diminuição das contagens de células sanguíneas.

 

 

 

O quadro seguinte estima os efeitos da exposição crónica de trabalhadores a diferentes concentrações de benzeno, tendo contudo um carácter especulativo:

 

Percentagem de trabalhadores que apresentam alterações de saúde de acordo com o nível de exposição

Duração

Exposição

mg/m3

Depressão da medula óssea %

Anemia aplástica %

1 ano

320

90

10

 

160

50

5

 

32

1

0a

 

3.2

0a

0a

10 anos

320

99

50

 

160

75

10

 

32

5

0a

 

3.2

<1

0a

a) poderão ser observados casos esporádicos

 

 

Centro Regional de Saúde Pública de Lisboa e Vale do Tejo

Lisboa 10-09-2002